domingo, 9 de dezembro de 2018

O crime

Você estava lindo de pé na ponte,
O dia nublado,
A cara de Deus,
Os olhos de medula,
Seu corpo magro e alto
Contra a paisagem do rio
Marrom.

(E eu cortei com ódio a sua garganta)

Você estava linda de pé no cais,
O céu cinza,
O rosto de marfim,
Os olhos de vapor;
O corpo translúcido de seda e fumaça
Na paisagem do medo.

(E eu enfiei a faca no seu peito
E te rasguei inteira, tripas e sangue
Onde antes esfumava beleza)

(Como se estivéssemos em um quarto)

E tudo era lindo em cima da ponte
(Eu era a ponte
Eu era a faca
Eu era a cidade)
E eu me dilacerava por inteiro.

terça-feira, 13 de novembro de 2018

O laboratório

Indiferente as nuvens
Eu acordo todos os dias só para trabalhar no laboratório.
É claro, os outros trabalham muito mais.
Mas eles trabalham e voltam para casa e assistem
        televisão ou se divertem felizes com as coxas de
        suas mulheres.
Eles jogam baralho e se interessam por aviões.
Eu vivo para o laboratório.
De alguma forma sou ele, com todos os seus líquidos e frascos.
Os outros me perguntam:
"O que você tanto faz?" e eu não sei.
Eu não escolhi estar aqui.
Eu nem sei se gosto.
Ele me ajuda mais do que o mundo, isso é claro.
Por isso eu me tranco aqui.
As noites eu bebo.
Danço eufórico entre os meus conta gotas e os meus tubos de ensaio.

Pela manha acordo.
Indiferente as nuvens,
Entre os vidros coloridos dos mundos das ideias.

(Algum dia eu ainda vou transformar sangue em ouro)

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

O outro

Alberto era um homem relativamente normal.
Sua tragédia teve inicio quando começou a suspeitar.

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No principio era apenas uma sensação física. Algo embaixo da pele. Um formigamento. Quando menos percebeu seus nervos estavam latejando:
Alberto começou a suspeitar que algo dentro dele rastejava.

Então começou a duvidar.
Duvidou da mulher, do trabalho, dos amigos.
Duvidou de tudo o que tinha sido. Duvidou de si mesmo.
Alberto se duvidou por inteiro. Não podia ser apenas ele, tinha de haver algum outro,
uma sombra, alguém: um monstro. Quem sabe o próprio diabo...
Algo conspirava dentro dos seus órgãos: teve medo.

E se Alberto dizia sim, fazia não.
E se Alberto dizia não, fazia sim.
Quando Alberto queria sorrir, chorava.
Quando queria chorar, se ria.

E lentamente Alberto se tornou juiz e réu da própria pessoa. Como um cão mordendo o próprio rabo foi girando e girando e girando.
Os outros nunca iriam entender:
Como Alberto era um e ao mesmo tempo era dois?
Se sentia perseguido...
Alguém vigiava seus passos.

Talvez fosse um espinho. Alguma espécie de furo. Um objeto intruso: um abjeto. Lembrou que sua vida tinha sido precária. O desamparo era a sua condição de existência. Era quase que um negocio no peito que sentia desde menino; um desconforto, um aperto.

O outro era incansável (sim, esse era seu nome).
Alberto suspeitava que podia fazer mal a si mesmo. Ficou com medo. Começou a ficar com medo de fazer mal a sua esposa, seus amigos. Alberto precisava proteje-los porque alguma coisa medonha se revirava dentro dele.

As suas entranhas clamavam, desesperadas.
Uma aflição horrível corroía seus minutos:

Ele passava os dias perseguindo o outro,
Sem saber que era o mesmo.

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Como podia Alberto reconstruir todas as vozes,
e o que elas disseram, e o que o levou até onde chegou?

Foi assim que meses depois Alberto enlouqueceu completamente.

(E é assim que um pais elege um presidente fascista).
 

Espuma

Liquido azul reflui
             do corpo para o ar.
"Se você mergulhar fundo
Talvez encontra algo mutilado dentro"
(Por enquanto sou feito de agua):

O tempo rasga vida como barcos na tempestade.



Eu sinto falta

Eu não sei se eu já te disse
Mas eu sinto falta da sua casa;
Das paredes brancas, da luminária, dos cinzeiros e
Da sala de jantar.
Eu sinto falta do seu quarto;
Das fotos e desenhos pregados em cima da sua cama,
Dos seus livros, cigarros e da varanda de vidro
Embaixo das arvores escuras.

Eu não sei eu já te disse mas eu sinto falta de você;
Dos seus ventos e cortinas, da sua constelação.

E não que eu vá voltar atrás.

Eu só queria agarrar as suas mãos e sair correndo na tempestade.


Faust arp

Todos os dias os mesmos quebra-cabeças
Fadado ao vicio ao corpo ao desejo sexual
"Até que você é inteligente
(e um bocado sensível)"
Assista a si mesmo caindo
Através do vidro
O corpo inchado de sangue
Você não consegue mais suportar.

(Mefistófeles desenha caminhos na sombra)

Nem os livros nem as drogas podem me salvar.

Cave of rebirth

Onde as paredes são brancas
e opacas. O liquido nos envolve.
Nem mesmo essa concha surda
me proteje de estar sozinho.
E ao redor é um circulo.

(Aqueles mundos que me
brotaram do peito tumultuoso,
eu os amei.
Mas agora...)

E logo eu, que nunca fui feito pra caber.
"Invente um mundo de palavras"
eu me dizia. Logo eu que sempre me agitei.
Que sempre fui inquieto.
Que sempre fui triste.

Mas agora eu flutuo.
No liquido, dentro do meu útero de pedras.
Onde as paredes são surdas.
E a concha é branca.
E a solidão é branca.

sábado, 29 de setembro de 2018

2018 (intertextualidade)

Ulisses entre meus ciclopes
Molloy entre as minhas muletas
Aureliano entre meus peixinhos de ouro.

O sol, o quarto e a noite

                            Para Julia, com muito amor.


Acordamos tarde, como sempre.
Deviam ser por volta das duas.
O dia estava claro e amplo,
O céu estava azul e a casa de
paredes grandes abraçava o quarto.
Esfregávamos nossos olhos:
Estávamos famintos.

Haviam cores belas e violentas a serem descobertas.
O dia estava imenso e a vida era gigantesca.
Nós éramos gigantescos.
Eu sentia um vento imenso
a me soprar no peito, você ainda estava calma.

Havia algo errado.
Subitamente, de um momento para o outro
pareceu que o tempo havia passado e pareceu
que a vida não era gigante, ela era pequena
e só existia em quartos, copos,
livros, situações.

E nós chorávamos pois o tempo havia passado
e nós sabíamos que os dias daqueles que se amaram
nunca poderiam se repetir sob a terra,
o que havia acontecido estava para sempre acontecido.

O que se faz por amor está para além do bem e do mal.

Anoiteceu, e a casa agigantada se tornou fria:
O dia havia passado pela janela.

Julia, eu te amo.

Talvez nada esteja errado.
Mas e se novamente amanhecer
e nós ficarmos com medo da vida ser pequena?

Eu te amo.
Mas tem um vento soprando no meu peito.
Eu preciso descobrir se o mundo é grande:

Eu preciso descobrir se eu sou a minha solidão.





Moral

Quando eu estiver defrente aos portões perolados
as nuvens e as paredes hão de me perdoar,
as coisas hão de me perdoar,
eu hei de me perdoar.

Você acredita no diabo?
No diabo atrás das portas,
ao redor das garrafas,
dentro da gente?

Pedido de desculpa ou a minha natureza

                            Para Lucas Moraes Figueredo...


Ontem você me disse que deveríamos buscar nossos
próprios caminhos. Engraçado, pareceu obvio mas não é.
Cada um deve seguir o seu caminho e que ele eles sejam
diferentes, tudo bem. Ficou claro que eu nunca poderia
seguir um caminho tão distante do caos que eu sou.
Eu sou uma tempestade. Meu caminho é um parto.
Meu destino é ser um parto: fazer nascer, ou morrer tentando.
Que eu tenha de ser luta e devir e contradição de finalidades,
não poderia ser diferente e acho que tudo bem.

Eu me mataria por reconhecimento.

fado

energia queimava minhas entranhas, movimento
de dentro para fora, corpo.

(eu explodia em flores. queria ser o mundo)

a sina desenfreada e louca de nossos anos de solidão.

o que sou

eu sou aquilo que escapa ao que sou;
ao que digo, ao que penso, ao que sinto,
a aqueles que me amam
(ou talvez não me amem mais).

eu sou aquilo que está para além de mim
(e estou terrivelmente sozinho)

O sacrifício

Vivo para lutar contra minha natureza.

Eu só queria saber as coisas importantes do mundo.
Me reencontrar em algum lugar machucado do coração.
Viver por amor.
Inventar a mim.

E como que enterrados vamos perdendo
pouco a pouco a esperança.
É abafada, e tem gosto de terra a vida.

(Passaremos os anos sonhando)

dentro aqui

ainda que eu não possa reter o instante.
mesmo que a vida me roube o sonho 
ou que o sonho me roube a vida.
mesmos que as palavras me abandonem.
ainda que elas virem fumaça.

mesmo que eu me duvide por inteiro.

domingo, 26 de agosto de 2018

as coisas atrás do sol

o vazio ao redor perde espessura.
dentro se torna denso.
a alma é aquilo que se torna
                           (há vento).

entre,
por favor.
sim, fale.
fale sobre a noite.
sobre as coisas atrás do sol.
sobre as pessoas na sua cabeça.

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

o despedaçar

um corpo sai do outro.
no chão sangue, músculo e ossos.

porque há tanta violência no
esperma que fecunda nas
estrelas que explodem no
nascer crescer morrer
na vida que germina e que quer dominar?
porque há tanta violência nos
destinos, nos átomos, nas tábuas de valores?
no dominar a vida pela metáfora?

um corpo sai do outro.
no chão sangue músculo e ossos.
a alma que rasga a si mesma por dentro
para caber mais mundo.


e este segredo a própria vida me contou: "vê" disse
"eu sou aquilo que sempre tem de superar a si mesmo"

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

o pier

não sei se vem de dentro que o céu fica azul.
nuvens de espuma branca
espalhadas por cima do rio pardacento.
o pier de pedras no frio hibernal.
o sol amarelado.
a luz rebrilhando na agua marrom.

vou parir uma cidade

                             (viver é traduzir)

auto-retrato em tres cores

alguma coisa intumescida e dolorosa tinha
arrebentado dentro dele. "não verei mais (sentiu)
nem este céu cheio de pavor mitológico, nem este
rosto que os anos transformarão". se quiser pensar,
não pense em porque as pessoas não amam umas as
outras, pense em porque elas não amam a si mesmas
e talvez assim você comece a ama-las.

(palavras no rio onde Heráclito viu nossa loucura)

chuva

cai gota
após
gota.
as palavras se moviam lentas,
e argilosas, viravam as paginas das paredes.
nossos rostos ainda molhados guardavam
uma solidão azul.
(olhos empapados de chuva e minério).

havia um ruído.

(e você percebe que ninguém
te contou sobre isso e que a vida
afinal de contas não é tão simples)

vidraça

há uma vidraça entre eu e o mundo.
moscas verdes na vidraça.
antenas parabólicas furando o céu.

(não vale a pena
há o vento e o estado de vigília)

mar (estudo)

nuvens de ressaca.
ondas cinzas de espumas prateadas.
pérolas de luz.
faíscas geladas flutuam nos músculos da água.

(massa acinzentada marrom-fria)

as coisas

caminhava pesado
e o sol, turvo,
não conseguia apagar a sombra
que em voo silente me perseguia.

nada é apenas se torna
e é o próprio movimento de tornar-se
em um interno e constante devir.
o amarelo no frio se torna azul
e as coisas se tornam tangíveis, ainda que obliquas.
as flores existem. a rua existe.
o outro existe.

olhava para as coisas e esperava que elas,
familiares, me respondessem.
mas a sombra me dilacerava
e divorciado eu seguia doendo.
o bar. o mercado. a padaria.
as pessoas, hora metálicas, hora lamacentas.
as flores purpuras do inverno.

(a nuvem não existe)

pétalas

quando rasga as pétalas
da minha pele e me devora.
quando faz poesia da fala entupida.
quando apaga cigarros nos meus beijos
e me bebe em gotas.

poesia

a poesia é, enquanto substancia
distinta da linguagem.
é o que está para além dela.
exatamente onde ela acaba.
é o indizível (e as vezes é preciso se calar).

a beleza é tão violenta quanto a angustia.

escombros

porque as coisas se tornaram tão externas,
         tão estranhas, violentas?
será que as pequenas flores que eu protegia
          estilhaçaram cá dentro?
será que a ponte se transformou no outro lado?

e o que me resta é tão terrivelmente intimo,
tão obstinadamente meu..

alguma espécie de fim

lendo Fernando Pessoa embaixo de uma arvore
               nos gramados verdes e ensolarados da
               cidade universitária.
isso de sensações só vale a pena se a gente não
                se põe a olhar pra elas.
nenhuma delas em mim é serena...
de resto, nada em mim é certo e está de acordo
                 comigo próprio.

domingo, 24 de junho de 2018

quarta-feira, 20 de junho de 2018

o homem de lama

o fundo era inacessível.
dolorido.
feito de lama.
eu era impalpável.
cada vez menos ser e cada vez mais
            especulação e silencio.

seguia vida intranquilo.
escorregava. estava esmigalhado.

penso.
pensava muito ultimamente.
não propriamente sentia.

(continuava hiperbólico)

terça-feira, 12 de junho de 2018

temporal

dentro do quarto,
janelas abertas;
ruído azul.
noite.
instante entre a angustia e a potência.
ainda quarto.
portas abertas. janelas quebradas.
chuva escura jorrando dentro.

(lento fluxo de água profunda)

domingo, 13 de maio de 2018

palavras

as peças do quebra cabeça caem
                         coloridas ao redor

(a linguagem é um lugar e é onde estou)

                                      dizer é inventar

domingo, 6 de maio de 2018

o estrago feito

se rasguei minha pele
ao caminhar entre as roseiras
a culpa não foi de ninguém.
se caí no buraco
de minha própria sombra
a culpa também não foi de ninguém.
aos poucos aprendemos a ignorar
       o cheiro das crianças mutiladas
       com olhos de jardim que cortamos
       e escondemos embaixo da cama.

(voltamos a nós mesmos, destroçados)

                 

sexta-feira, 20 de abril de 2018

teatro

volto a mim para me inventar
mas sou a pintura, não o pintor.

(e fingir-se louco
      e fingir-se triste
          e fingir-se herói)

anestesia

flui de lá, do osso,
espremido entre as vértebras,
nuvens no peito,
flores no ar, um corpo,
entre o tempo e o espaço,
os aquários da imaginação,
rosa no azul, o mundo no peito

transparência latejante
             
                               anestesia

terça-feira, 13 de março de 2018

quartos

você
vista de perto,
cachos pintados de preto
           sobre a pele branca-azulada.
sem camisa.
deitada na cama.
e o silencio recobria seus olhos aquela noite.
o quarto.
e se fosse apenas o quarto estaria tudo bem.
mas o vento não tem nome. nem jeito.
                           nem solução.
os pulsos cortados das paredes.
as serpentes são o preço de se manter os
                         relógios funcionando.
o péssimo aqui.
e eu
 
          empurrando o céu para longe
       (da fragilidade dos quartos que tentamos
                                   tristemente construir)


quinta-feira, 1 de março de 2018

Fazer

Por não saber sentir
Eu quis fazer.
Fazer, pois para mim a vivacidade
               nunca foi uma escolha.
Eu não queria mais me machucar.

Então eu caminhei,
Perplexo a seguir passos de chuva,
             golpes de som ao meu redor.
E cansado, atirei o frasco de remédio ao rio,
             vidro preso entre as rochas oleosas,
             água fluida a sorver o liquido dentro,
             ar enluarado e pegajoso em volta.
Então eu continuei, sóbrio,
Olhos cintilantes a faiscar e zunir através da noite.
Dentro de mim viagens.

Apenas falei palavras melodiosas,
Tarde, ao voltar da festa.

(E as donzelas nadavam através das lagrimas)

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

A manhã

Surge no céu a Aurora de róseos dedos.
O que antes era chão hoje é mar e é preciso ir além,
                                                     Muito além;
Além do mar violáceo de ondas verdes,
Além da espuma branca, dos corais rosas
             e das tristes flores de água.
Moscas zunem nos meus órgãos, formigas
             rastejam embaixo da minha pele e as
             cobras irrequietas deslizam lentamente
             pelos meus músculos.
Mas para além do medo se fez manhã
E o amanhecer cuspia a vida em uma
             vivacidade assustadora.

O fogo, sempre.
E a minha incredulidade através do mar vinhoso.
As manhãs consomem e geram os dias.
O fogo, sempre. A vida também.
Amanhã talvez.
 

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Baldes de chuva

Eu nunca realmente me acostumei com isso.
Talvez as coisas apenas estejam devagares,
                  na velocidade que lhes é intrínseca.
Talvez a revoada de pássaros não mais comova
                        meus ouvidos como antigamente.
As asas estão enterradas no asfalto.
Meus olhos hoje presos a cores sóbrias.
As coisas que acabam, boas ou más, sempre
                              deixam um vazio estranho.
Esperando ser levado para longe.
Ainda aqui.
De tantos que fui e não quero ser não sei quem sou.
Ainda aqui. Preso.
A engolir baldes de chuva pelos ouvidos.

(Engolindo baldes de chuva pelos ouvidos...)

domingo, 14 de janeiro de 2018

Gotas

A cor é gota vermelha sobre vidro amarelo.
O gosto é cerveja gelada.

In the search for the new land.
New horizons.
In limbo.
(How to disappear completely)
– Portrait of the living sky.

E assim como os valores mudam com o tempo,
Também mudam as gerações perdidas.
Li Tai Po se esfumaça em flores.
Ouro liquido revolve areia.
A sina é água correndo pela pele,
Água fria pingando nas veias verdes,
A própria consciência como água a
                          respingar sozinha muito antes
                          dos grandes homens entrarem
                          nos meus dias.
Vapor violeta paira ao redor dos olhos de esmeralda.
Longos dedos perfuram a névoa azul.

Entre nascer e morrer:
Uma efervescência imoral de cores.
(Quero voltar a dormir)

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

De Lisboa ao Porto

A sombra se esfumaça abaixo das oliveiras;
         resta a penumbra.
Eu não consigo fugir de mim mesmo.
Eu não consigo fugir de mim mesmo.
Eu não sei escapar.
Os Jeronimos enlouqueceram novamente,
Acho que eles nunca estiveram exatamente calmos.
Lagartosas ruas de Lisboa.
Espuma verde banha os mariscos nas rochas,
          próximo de onde o Tejo encontra o mar.
Limoeiros crescem nas encostas cinzolivas
          e nos quintais mal cuidados na beira das
          estradas.
Eu não consigo me vencer.
Inês está morta. Morta.
Não há nada que ninguém possa fazer.
O gás da mente flui sobre as antigas ruas de Coimbra a noite,
           estreitas, come lulas assadas no espeto, bebe vinho.
O gás da mente, triste, trôpego a murmurar Ovídio
(Trôpego a murmurar Ovídio...).
E o rio Douro ao longe, espesso como tinta.
Cai o muro, o que resta é pó sobre escombro
"Nec spe nec metu"

              O que você acha que eu veria se conseguisse correr
                                                                                       para longe de mim?

Em Lisboa

O frio da cidade sopra ao redor do seu pescoço
         ao som da batida do relógio.
Há pérolas no céu.
Não se preocupe, eu os manterei longe,
         faça o que eu digo e eu vou fazer ficar tudo bem.
Uma névoa esverdeada envolve Lisboa.
Tem essa ausência branca acima. Dentro também.
Gás azul sopra dos seus olhos.
Torneiras tossem.
Você sabe que você meio virou meu mundo
         de cabeça pra baixo, né?
Ruas, ruelas, vielas de pedra, calçadas de piano,
         escadarias, charmosos pequenos prédios
         com varandas melancólicas, azulejos, frio,
         cachecol quadriculado, janela.
Rio Tejo a fluir como películas de imagens
          resplandecendo esmeraldas.
Eu e meu irmão a caminhar pelas ruas de Lisboa,
           Em sonhos de haxixe.

Eu estou apaixonado pelo mundo através dos olhos de uma garota.