Alberto era um homem relativamente normal.
Sua tragédia teve inicio quando começou a suspeitar.
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No principio era apenas uma sensação física. Algo embaixo da pele. Um formigamento. Quando menos percebeu seus nervos estavam latejando:
Alberto começou a suspeitar que algo dentro dele rastejava.
Então começou a duvidar.
Duvidou da mulher, do trabalho, dos amigos.
Duvidou de tudo o que tinha sido. Duvidou de si mesmo.
Alberto se duvidou por inteiro. Não podia ser apenas ele, tinha de haver algum outro,
uma sombra, alguém: um monstro. Quem sabe o próprio diabo...
Algo conspirava dentro dos seus órgãos: teve medo.
E se Alberto dizia sim, fazia não.
E se Alberto dizia não, fazia sim.
Quando Alberto queria sorrir, chorava.
Quando queria chorar, se ria.
E lentamente Alberto se tornou juiz e réu da própria pessoa. Como um cão mordendo o próprio rabo foi girando e girando e girando.
Os outros nunca iriam entender:
Como Alberto era um e ao mesmo tempo era dois?
Se sentia perseguido...
Alguém vigiava seus passos.
Talvez fosse um espinho. Alguma espécie de furo. Um objeto intruso: um abjeto. Lembrou que sua vida tinha sido precária. O desamparo era a sua condição de existência. Era quase que um negocio no peito que sentia desde menino; um desconforto, um aperto.
O outro era incansável (sim, esse era seu nome).
Alberto suspeitava que podia fazer mal a si mesmo. Ficou com medo. Começou a ficar com medo de fazer mal a sua esposa, seus amigos. Alberto precisava proteje-los porque alguma coisa medonha se revirava dentro dele.
As suas entranhas clamavam, desesperadas.
Uma aflição horrível corroía seus minutos:
Ele passava os dias perseguindo o outro,
Sem saber que era o mesmo.
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Como podia Alberto reconstruir todas as vozes,
e o que elas disseram, e o que o levou até onde chegou?
Foi assim que meses depois Alberto enlouqueceu completamente.
(E é assim que um pais elege um presidente fascista).
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