domingo, 26 de agosto de 2018

as coisas atrás do sol

o vazio ao redor perde espessura.
dentro se torna denso.
a alma é aquilo que se torna
                           (há vento).

entre,
por favor.
sim, fale.
fale sobre a noite.
sobre as coisas atrás do sol.
sobre as pessoas na sua cabeça.

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

o despedaçar

um corpo sai do outro.
no chão sangue, músculo e ossos.

porque há tanta violência no
esperma que fecunda nas
estrelas que explodem no
nascer crescer morrer
na vida que germina e que quer dominar?
porque há tanta violência nos
destinos, nos átomos, nas tábuas de valores?
no dominar a vida pela metáfora?

um corpo sai do outro.
no chão sangue músculo e ossos.
a alma que rasga a si mesma por dentro
para caber mais mundo.


e este segredo a própria vida me contou: "vê" disse
"eu sou aquilo que sempre tem de superar a si mesmo"

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

o pier

não sei se vem de dentro que o céu fica azul.
nuvens de espuma branca
espalhadas por cima do rio pardacento.
o pier de pedras no frio hibernal.
o sol amarelado.
a luz rebrilhando na agua marrom.

vou parir uma cidade

                             (viver é traduzir)

auto-retrato em tres cores

alguma coisa intumescida e dolorosa tinha
arrebentado dentro dele. "não verei mais (sentiu)
nem este céu cheio de pavor mitológico, nem este
rosto que os anos transformarão". se quiser pensar,
não pense em porque as pessoas não amam umas as
outras, pense em porque elas não amam a si mesmas
e talvez assim você comece a ama-las.

(palavras no rio onde Heráclito viu nossa loucura)

chuva

cai gota
após
gota.
as palavras se moviam lentas,
e argilosas, viravam as paginas das paredes.
nossos rostos ainda molhados guardavam
uma solidão azul.
(olhos empapados de chuva e minério).

havia um ruído.

(e você percebe que ninguém
te contou sobre isso e que a vida
afinal de contas não é tão simples)

vidraça

há uma vidraça entre eu e o mundo.
moscas verdes na vidraça.
antenas parabólicas furando o céu.

(não vale a pena
há o vento e o estado de vigília)

mar (estudo)

nuvens de ressaca.
ondas cinzas de espumas prateadas.
pérolas de luz.
faíscas geladas flutuam nos músculos da água.

(massa acinzentada marrom-fria)

as coisas

caminhava pesado
e o sol, turvo,
não conseguia apagar a sombra
que em voo silente me perseguia.

nada é apenas se torna
e é o próprio movimento de tornar-se
em um interno e constante devir.
o amarelo no frio se torna azul
e as coisas se tornam tangíveis, ainda que obliquas.
as flores existem. a rua existe.
o outro existe.

olhava para as coisas e esperava que elas,
familiares, me respondessem.
mas a sombra me dilacerava
e divorciado eu seguia doendo.
o bar. o mercado. a padaria.
as pessoas, hora metálicas, hora lamacentas.
as flores purpuras do inverno.

(a nuvem não existe)

pétalas

quando rasga as pétalas
da minha pele e me devora.
quando faz poesia da fala entupida.
quando apaga cigarros nos meus beijos
e me bebe em gotas.

poesia

a poesia é, enquanto substancia
distinta da linguagem.
é o que está para além dela.
exatamente onde ela acaba.
é o indizível (e as vezes é preciso se calar).

a beleza é tão violenta quanto a angustia.

escombros

porque as coisas se tornaram tão externas,
         tão estranhas, violentas?
será que as pequenas flores que eu protegia
          estilhaçaram cá dentro?
será que a ponte se transformou no outro lado?

e o que me resta é tão terrivelmente intimo,
tão obstinadamente meu..

alguma espécie de fim

lendo Fernando Pessoa embaixo de uma arvore
               nos gramados verdes e ensolarados da
               cidade universitária.
isso de sensações só vale a pena se a gente não
                se põe a olhar pra elas.
nenhuma delas em mim é serena...
de resto, nada em mim é certo e está de acordo
                 comigo próprio.