terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Baldes de chuva

Eu nunca realmente me acostumei com isso.
Talvez as coisas apenas estejam devagares,
                  na velocidade que lhes é intrínseca.
Talvez a revoada de pássaros não mais comova
                        meus ouvidos como antigamente.
As asas estão enterradas no asfalto.
Meus olhos hoje presos a cores sóbrias.
As coisas que acabam, boas ou más, sempre
                              deixam um vazio estranho.
Esperando ser levado para longe.
Ainda aqui.
De tantos que fui e não quero ser não sei quem sou.
Ainda aqui. Preso.
A engolir baldes de chuva pelos ouvidos.

(Engolindo baldes de chuva pelos ouvidos...)

domingo, 14 de janeiro de 2018

Gotas

A cor é gota vermelha sobre vidro amarelo.
O gosto é cerveja gelada.

In the search for the new land.
New horizons.
In limbo.
(How to disappear completely)
– Portrait of the living sky.

E assim como os valores mudam com o tempo,
Também mudam as gerações perdidas.
Li Tai Po se esfumaça em flores.
Ouro liquido revolve areia.
A sina é água correndo pela pele,
Água fria pingando nas veias verdes,
A própria consciência como água a
                          respingar sozinha muito antes
                          dos grandes homens entrarem
                          nos meus dias.
Vapor violeta paira ao redor dos olhos de esmeralda.
Longos dedos perfuram a névoa azul.

Entre nascer e morrer:
Uma efervescência imoral de cores.
(Quero voltar a dormir)

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

De Lisboa ao Porto

A sombra se esfumaça abaixo das oliveiras;
         resta a penumbra.
Eu não consigo fugir de mim mesmo.
Eu não consigo fugir de mim mesmo.
Eu não sei escapar.
Os Jeronimos enlouqueceram novamente,
Acho que eles nunca estiveram exatamente calmos.
Lagartosas ruas de Lisboa.
Espuma verde banha os mariscos nas rochas,
          próximo de onde o Tejo encontra o mar.
Limoeiros crescem nas encostas cinzolivas
          e nos quintais mal cuidados na beira das
          estradas.
Eu não consigo me vencer.
Inês está morta. Morta.
Não há nada que ninguém possa fazer.
O gás da mente flui sobre as antigas ruas de Coimbra a noite,
           estreitas, come lulas assadas no espeto, bebe vinho.
O gás da mente, triste, trôpego a murmurar Ovídio
(Trôpego a murmurar Ovídio...).
E o rio Douro ao longe, espesso como tinta.
Cai o muro, o que resta é pó sobre escombro
"Nec spe nec metu"

              O que você acha que eu veria se conseguisse correr
                                                                                       para longe de mim?

Em Lisboa

O frio da cidade sopra ao redor do seu pescoço
         ao som da batida do relógio.
Há pérolas no céu.
Não se preocupe, eu os manterei longe,
         faça o que eu digo e eu vou fazer ficar tudo bem.
Uma névoa esverdeada envolve Lisboa.
Tem essa ausência branca acima. Dentro também.
Gás azul sopra dos seus olhos.
Torneiras tossem.
Você sabe que você meio virou meu mundo
         de cabeça pra baixo, né?
Ruas, ruelas, vielas de pedra, calçadas de piano,
         escadarias, charmosos pequenos prédios
         com varandas melancólicas, azulejos, frio,
         cachecol quadriculado, janela.
Rio Tejo a fluir como películas de imagens
          resplandecendo esmeraldas.
Eu e meu irmão a caminhar pelas ruas de Lisboa,
           Em sonhos de haxixe.

Eu estou apaixonado pelo mundo através dos olhos de uma garota.