terça-feira, 13 de novembro de 2018

O laboratório

Indiferente as nuvens
Eu acordo todos os dias só para trabalhar no laboratório.
É claro, os outros trabalham muito mais.
Mas eles trabalham e voltam para casa e assistem
        televisão ou se divertem felizes com as coxas de
        suas mulheres.
Eles jogam baralho e se interessam por aviões.
Eu vivo para o laboratório.
De alguma forma sou ele, com todos os seus líquidos e frascos.
Os outros me perguntam:
"O que você tanto faz?" e eu não sei.
Eu não escolhi estar aqui.
Eu nem sei se gosto.
Ele me ajuda mais do que o mundo, isso é claro.
Por isso eu me tranco aqui.
As noites eu bebo.
Danço eufórico entre os meus conta gotas e os meus tubos de ensaio.

Pela manha acordo.
Indiferente as nuvens,
Entre os vidros coloridos dos mundos das ideias.

(Algum dia eu ainda vou transformar sangue em ouro)

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

O outro

Alberto era um homem relativamente normal.
Sua tragédia teve inicio quando começou a suspeitar.

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No principio era apenas uma sensação física. Algo embaixo da pele. Um formigamento. Quando menos percebeu seus nervos estavam latejando:
Alberto começou a suspeitar que algo dentro dele rastejava.

Então começou a duvidar.
Duvidou da mulher, do trabalho, dos amigos.
Duvidou de tudo o que tinha sido. Duvidou de si mesmo.
Alberto se duvidou por inteiro. Não podia ser apenas ele, tinha de haver algum outro,
uma sombra, alguém: um monstro. Quem sabe o próprio diabo...
Algo conspirava dentro dos seus órgãos: teve medo.

E se Alberto dizia sim, fazia não.
E se Alberto dizia não, fazia sim.
Quando Alberto queria sorrir, chorava.
Quando queria chorar, se ria.

E lentamente Alberto se tornou juiz e réu da própria pessoa. Como um cão mordendo o próprio rabo foi girando e girando e girando.
Os outros nunca iriam entender:
Como Alberto era um e ao mesmo tempo era dois?
Se sentia perseguido...
Alguém vigiava seus passos.

Talvez fosse um espinho. Alguma espécie de furo. Um objeto intruso: um abjeto. Lembrou que sua vida tinha sido precária. O desamparo era a sua condição de existência. Era quase que um negocio no peito que sentia desde menino; um desconforto, um aperto.

O outro era incansável (sim, esse era seu nome).
Alberto suspeitava que podia fazer mal a si mesmo. Ficou com medo. Começou a ficar com medo de fazer mal a sua esposa, seus amigos. Alberto precisava proteje-los porque alguma coisa medonha se revirava dentro dele.

As suas entranhas clamavam, desesperadas.
Uma aflição horrível corroía seus minutos:

Ele passava os dias perseguindo o outro,
Sem saber que era o mesmo.

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Como podia Alberto reconstruir todas as vozes,
e o que elas disseram, e o que o levou até onde chegou?

Foi assim que meses depois Alberto enlouqueceu completamente.

(E é assim que um pais elege um presidente fascista).
 

Espuma

Liquido azul reflui
             do corpo para o ar.
"Se você mergulhar fundo
Talvez encontra algo mutilado dentro"
(Por enquanto sou feito de agua):

O tempo rasga vida como barcos na tempestade.



Eu sinto falta

Eu não sei se eu já te disse
Mas eu sinto falta da sua casa;
Das paredes brancas, da luminária, dos cinzeiros e
Da sala de jantar.
Eu sinto falta do seu quarto;
Das fotos e desenhos pregados em cima da sua cama,
Dos seus livros, cigarros e da varanda de vidro
Embaixo das arvores escuras.

Eu não sei eu já te disse mas eu sinto falta de você;
Dos seus ventos e cortinas, da sua constelação.

E não que eu vá voltar atrás.

Eu só queria agarrar as suas mãos e sair correndo na tempestade.


Faust arp

Todos os dias os mesmos quebra-cabeças
Fadado ao vicio ao corpo ao desejo sexual
"Até que você é inteligente
(e um bocado sensível)"
Assista a si mesmo caindo
Através do vidro
O corpo inchado de sangue
Você não consegue mais suportar.

(Mefistófeles desenha caminhos na sombra)

Nem os livros nem as drogas podem me salvar.

Cave of rebirth

Onde as paredes são brancas
e opacas. O liquido nos envolve.
Nem mesmo essa concha surda
me proteje de estar sozinho.
E ao redor é um circulo.

(Aqueles mundos que me
brotaram do peito tumultuoso,
eu os amei.
Mas agora...)

E logo eu, que nunca fui feito pra caber.
"Invente um mundo de palavras"
eu me dizia. Logo eu que sempre me agitei.
Que sempre fui inquieto.
Que sempre fui triste.

Mas agora eu flutuo.
No liquido, dentro do meu útero de pedras.
Onde as paredes são surdas.
E a concha é branca.
E a solidão é branca.