sábado, 25 de novembro de 2017

Inconfessável

Passo de palavra em palavra quase como correndo. Não sei em qual direção. Palavras que retornarão eternamente e por isso devem ser pensadas da forma mais azul possível. O azul é impossível, clamo por finalmente me confessar acima de qualquer efêmero. Sou impossível. Impossível de fazer-me, de realizar-me, de encerrar-me como única consequência. Nem passado nem futuro mas no que há entre eles, no corpo. Não tenho corpo, tenho carne. Carne mutilada pelo tempo, ossos quebrados e nacos de carniça que eu nem sei como me ocorreram. Eu atravesso sozinho com muletas esse oceano de açúcar. Cachoeiras de palavras rompem o dique do silencio, sempre o silencio, perseguindo o silencio, fugindo do silencio, sendo o silencio. Mas não conheço o silencio por traz das palavras. Heis as nossas únicas certezas, linguagem e tempo. Heis as maiores mentiras: linguagem e tempo. Conclui-se que a existência é mentirosa e eu, portanto, impossível. Eu impossível. Invencível. A passadas gigantescas. A maldita vontade de potência jogando na minha cara tudo o que eu sinto contra tudo que eu acredito. Talvez essa seja a minha vivacidade. Invencível. Frágil como um navio de vidro. Sozinho. Invencível. Que cada qual seja cálido ao seu martírio, ninguém será capaz de entender toda a perdição que cabe no meu peito. Dizem que isso é inquietação. Todos queremos dominar o mundo, talvez seja algo que venha embutido no parto. Mas faz-se impossível ser. A linha não mais existe, fragmentada, nunca existiu, apenas cachoeiras de palavras, cíclicas, redondas, invertidas, torna-se impossível. E essa fragilidade fetal, essa ausência de pele e amparo, essa nudez, essa nudez solitária, essa nudez solipsista, acho que no final sempre fui eu sozinho nesse quarto nu – as paredes não conseguem respirar – A vida, parece, tornou-se inacessível. Só nos resta escorrermos por nossos cus em alguma manhã cinzenta, após o café. A realidade é uma moeda de cara e coroa. Meus olhos pregados choram. Acho que eles nunca pararam de chorar. E sentir que as vezes a vida parece escorrer pelos nossos dedos. Tudo o que foi está para traz. Ou em cima. Ou em baixo. Do lado. Ao lado luzes difusas machucam o olho, as palavras nunca param, é bom se acostumar com isso. Dizem que é bom se acostumar. Se acostumar com tudo o que é impossível, irracionável, inominável, indizível, extasiante, indiferente ou enlouquecedoramente triste. Se acostume ao oceano de açúcar – inquieto – não subestime o eterno retorno ou seja um instante é igual a eternidade ou seja nunca se esqueça de olhar para alguma parte bem azul do céu no momento mais triste do seu dia. Eu quem? Eu onde? Eu quando? e acima de tudo Eu como? E porquê? A vida e o seu instinto nato e inato de buscar com uma sede naufraga todos os destinos e inexoráveis e o sol de cristal. Invencível. E transversal. Subterfúgios. Inventar as cores do girassol. Inventar a vida! É preciso inventar a vida! É preciso reinventar urgentemente a vida!! Mas nada diz nada sobre nada, as palavras continuam. Sempre palavras, parece que bem quando a gente se acostuma tudo começa a dar violentamente errado. Somos alheios a nossas vidas como um seringa descartável ou um vaso de carne ou uma nuvem de chuva. Mas continuo indizível. Continuo inconfessado. Continuo impossível. Talvez eu só confirme um velho estado das coisas.  Talvez eles apenas não gostem de mim. Talvez eu mesmo não goste de mim. Ou talvez goste. Caminhe em frente até que se esgotem as garrafas de eletricidade! Mas em frente onde? Me anulo de frase em frase ou com o passar do tempo. Me anulando me confirmo. A incerteza me faz eu. Eu não sou eu. Eu sou. Não sou. Sou. Não sou. Não sei de que fardo fui incumbido mas nota se que eu não o carreguei com êxito. Nunca me explicaram o que era esperado de mim mas eu decepcionei a todos, decepcionei a todos. Não consegui fazer o que queriam que eu fizesse, nem o que eu desejava fazer e nem desejar nada em nenhuma instancia. Também não consegui entender. Fiz-me impossível. Indizível. Eu não vou desistir. Eu vou continuar. Eu não posso continuar. Eu vou ser esse furacão verbal e tudo mais que couber no peito. Eu vou ser. Chorar.

Eu vou inventar a vida                                                              
                                 


Nenhum comentário:

Postar um comentário