Passo de
palavra em palavra quase como correndo. Não sei em qual direção. Palavras que
retornarão eternamente e por isso devem ser pensadas da forma mais azul
possível. O azul é impossível, clamo por finalmente me confessar acima de
qualquer efêmero. Sou impossível. Impossível de fazer-me, de realizar-me, de
encerrar-me como única consequência. Nem passado nem futuro mas no que há entre
eles, no corpo. Não tenho corpo, tenho carne. Carne mutilada pelo tempo, ossos
quebrados e nacos de carniça que eu nem sei como me ocorreram. Eu atravesso
sozinho com muletas esse oceano de açúcar. Cachoeiras de palavras rompem o
dique do silencio, sempre o silencio, perseguindo o silencio, fugindo do
silencio, sendo o silencio. Mas não conheço o silencio por traz das palavras.
Heis as nossas únicas certezas, linguagem e tempo. Heis as maiores mentiras:
linguagem e tempo. Conclui-se que a existência é mentirosa e eu, portanto,
impossível. Eu impossível. Invencível. A passadas gigantescas. A maldita
vontade de potência jogando na minha cara tudo o que eu sinto contra tudo que
eu acredito. Talvez essa seja a minha vivacidade. Invencível. Frágil como um
navio de vidro. Sozinho. Invencível. Que cada qual seja cálido ao seu martírio,
ninguém será capaz de entender toda a perdição que cabe no meu peito. Dizem que
isso é inquietação. Todos queremos dominar o mundo, talvez seja algo que venha
embutido no parto. Mas faz-se impossível ser. A linha não mais existe,
fragmentada, nunca existiu, apenas cachoeiras de palavras, cíclicas, redondas,
invertidas, torna-se impossível. E essa fragilidade fetal, essa ausência de
pele e amparo, essa nudez, essa nudez solitária, essa nudez solipsista, acho
que no final sempre fui eu sozinho nesse quarto nu – as paredes não conseguem
respirar – A vida, parece, tornou-se inacessível. Só nos resta escorrermos por
nossos cus em alguma manhã cinzenta, após o café. A realidade é uma moeda de
cara e coroa. Meus olhos pregados choram. Acho que eles nunca pararam de
chorar. E sentir que as vezes a vida parece escorrer pelos nossos dedos. Tudo o
que foi está para traz. Ou em cima. Ou em baixo. Do lado. Ao lado luzes difusas
machucam o olho, as palavras nunca param, é bom se acostumar com isso. Dizem
que é bom se acostumar. Se acostumar com tudo o que é impossível, irracionável,
inominável, indizível, extasiante, indiferente ou enlouquecedoramente triste.
Se acostume ao oceano de açúcar – inquieto – não subestime o eterno retorno ou
seja um instante é igual a eternidade ou seja nunca se esqueça de olhar para
alguma parte bem azul do céu no momento mais triste do seu dia. Eu quem? Eu
onde? Eu quando? e acima de tudo Eu como? E porquê? A vida e o seu instinto
nato e inato de buscar com uma sede naufraga todos os destinos e inexoráveis e
o sol de cristal. Invencível. E transversal. Subterfúgios. Inventar as cores do
girassol. Inventar a vida! É preciso inventar a vida! É preciso reinventar
urgentemente a vida!! Mas nada diz nada sobre nada, as palavras continuam.
Sempre palavras, parece que bem quando a gente se acostuma tudo começa a dar
violentamente errado. Somos alheios a nossas vidas como um seringa descartável
ou um vaso de carne ou uma nuvem de chuva. Mas continuo indizível. Continuo
inconfessado. Continuo impossível. Talvez eu só confirme um velho estado das
coisas. Talvez eles apenas não gostem de mim. Talvez eu mesmo não goste
de mim. Ou talvez goste. Caminhe em frente até que se esgotem as garrafas de
eletricidade! Mas em frente onde? Me anulo de frase em frase ou com o passar do
tempo. Me anulando me confirmo. A incerteza me faz eu. Eu não sou eu. Eu sou.
Não sou. Sou. Não sou. Não sei de que fardo fui incumbido mas nota se que eu
não o carreguei com êxito. Nunca me explicaram o que era esperado de mim mas eu
decepcionei a todos, decepcionei a todos. Não consegui fazer o que queriam que
eu fizesse, nem o que eu desejava fazer e nem desejar nada em nenhuma
instancia. Também não consegui entender. Fiz-me impossível. Indizível. Eu não
vou desistir. Eu vou continuar. Eu não posso continuar. Eu vou ser esse furacão
verbal e tudo mais que couber no peito. Eu vou ser. Chorar.
Eu vou
inventar a vida
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